Outro dia eu comentei que estava começando a escrever um romance policial. É mais ou menos assim que ele começa. O prólogo só apresenta o modus operandi do criminoso e põe o caso na mesa do personagem principal, então garanto que é uma leitura rápida embora levemente violenta.
— Prólogo.
Alice sabia que estava prestes a morrer. Havia algo na voz e no olhar de seu captor que fazia ela ter certeza disso. Tudo que restava à ela era desejar que partisse sem dor, e saber o por que de tudo aquilo. Algo lhe dizia que nenhum de seus pedidos seriam atendios. E ela estava certa.
“Vinte e três anos estudando para acabar assim, em um porão imundo, com um psicopata!” pensou, entre lágrimas e soluços abafados pela silver tape em sua boca, presa à uma cadeira, no escuro. Ela se esforçava para livrar-se das algemas em suas mãos, porém seus punhos já estavam sangrando em carne viva e não havia conseguido progresso algum. Eventualmente escutou passos vindo do andar de cima. Por um breve momento criou esperanças de que alguém havia encontrado-a, que o socorro viria, afinal, mas logo abandonou-as. Sabia que ninguém suspeitaria sua ausência durante o fm de semana. Talvez demorasse até mais de uma semana até que começassem as buscas por ela, e a cada segundo temia mais que encontrassem apenas seu corpo.
Uma luz cegou seus olhos, vindo da porta que levava para fora do porão, agora aberta. Uma figura interrompeu sua trajetória por um momento, formando a silhueta de um homem não muito alto, mas forte, que logo fechou a porta atrás de si. Descia a pequena escadaria que levava até ela calmamente, acendendo uma luz logo acima dela no caminho. Ao aproximar-se, ela pôde notar que o homem vestia apenas uma calça social preta e sapatos, além de trazer consigo uma seringa e um bisturi. Alice sentiu sua espinha congelar instantaneamente.
“Você sabe o peixe fugu, ma’belle?”. Resmungos abafados e gestos furiosos com a cabeça como resposta. “Calma, calma. Vai ficar tudo bem..”. Enquanto falava, também se aproximava com um sorriso sereno. A visão de Alice foi ficando cada vez mais nublada por suas lágrimas, já vertendo incontroláveis de seus olhos. Sentiu a agulha no seu pescoço e tentou resistir, sem sucesso algum. Sentiu a substância começar a fluir no seu sangue, e suas extremidades começando a ficar anestesiadas e paralisadas. A sensação começou a subir por seus braços e pernas rapidamente, mas antes que chegasse à seu coração, sentiu o bisturi em seu peito. Tentou puxar o ar uma última vez, em desespero, mas sequer isso conseguiu de tamanho terror. Seu último pensamento, em meio aos inúmeros cortes em seu corpo e seus próprios gritos, vocalizados apenas em sua mente, foi uma ironia. Naquele lugar havia um forte cheiro de café. E ela odiava café.
— Semanas depois, no escritório do Detetive Harris.
Naquela sexta-feira, às 19:20, eu estava cansado. Não havia conseguido dormir mais de quatro horas naquela semana, e tudo por causa da burocracia. Morte, impostos e burocracias, não há como fugir delas. Ainda assim, eu sentia que vivia perto demais de tudo aquilo. Três batidas na porta me trouxeram de volta à realidade, e o caso nas mãos de Tânia me faria desejar ter saído mais cedo, apenas naquele dia. Nada me cansaria mais do que aquele caso. Mas eu ainda não sabia disso.
“Temos um caso, chefe. Garota, por volta dos vinte anos.. Bem, aparentemente isso é tudo que conseguiram deduzir. A polícia está investigando as recentes desaparecidas para tentar identificar..”. Interrompi. “Espere, a polícia ainda não identificou a vítima? Afinal, o que sobrou dela?”. “Aparentemente, apenas pedaços de ossos carbonizados, chefe..”. Repulsa. Mas ao mesmo tempo, o sentimento de dever. De que algo precisava ser feito. “Prepare o café e já pode ir, Tânia. Vou levar o caso e segunda-feira vamos atrás desse cara.”.
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